6.02.2005

Filhos... assim é !!!

Para quem é PAI ou MÃE e para aqueles que o serão...






"Há um período em que os pais vão ficando órfãos dos seus próprios filhos. É que as crianças crescem independentes de nós, como árvores tagarelas e pássaros estabanados. Crescem sem pedir licença à vida. Crescem com uma estridência alegre e, às vezes, com alardeada arrogância.Mas não crescem todos os dias de igual maneira. Crescem de repente.

Um dia sentam-se perto de si no terraço e dizem uma frase com tal maturidade, que você percebe que nunca mais poderá mudar as fraldas daquela criatura. Como é que aquela danadinha cresceu, que você não percebeu? Onde está a pazinha de brincar na areia, as festinhas de aniversário com palhaços e o primeiro uniforme do Colégio? A criança cresceu num ritual de obediência orgânica e de desobediência civil. E você está agora ali, à porta da discoteca, esperando que ela não apenas cresça, mas apareça! Ali, estão muitos pais ao volante, esperando que eles saiam esfuziantes e de
cabelos longos e soltos.

Entre hambúrgueres e refrigerantes nas esquinas, lá estão os nossos filhos com o uniforme da sua geração: mochilas incómodas da moda, aos ombros. Aqui estamos nós, com os cabelos esbranquiçados. Estes são os filhos que conseguimos gerar e amar, apesar dos ventos, das colheitas, das notícias e da ditadura das horas. E eles cresceram meio amestrados, observando e aprendendo com os nossos acertos e erros. Principalmente com os erros, que esperamos, eles não repitam.

Há um período em que os pais vão ficando um pouco órfãos dos próprios filhos. Nunca mais iremos buscá-los à porta das discotecas e das festas. Passou o tempo do ballet, do inglês, da natação e do judo. Saíram do banco de trás e passaram para o volante das suas próprias vidas.
Deveríamos ter ido mais à cama deles ao anoitecer para ouvir a sua alma respirar e ouvir conversas e confidências entre os lençóis da infância, e os cobertores daquele quarto cheio de adesivos, pósteres, agendas coloridas e discos ensurdecedores. Não os levámos vezes suficientes ao Playcenter, ao Shopping, não lhes demos suficientes hambúrgueres e "colas", não lhes
comprámos todos os sorvetes e roupas que gostaríamos de ter comprado. Eles cresceram, sem que esgotássemos neles todo o nosso afecto.

Ao princípio, subiam a serra ou iam à casa de praia entre embrulhos, bolachas, engarrafamentos, natais, páscoas, piscina e amiguinhos. Sim, havia as brigas dentro do carro, a disputa pela janela, os pedidos de chicletes e cantorias sem fim. Depois chegou o tempo em que viajar com os pais começou a ser um esforço e um sofrimento, pois era impossível deixar os amigos e os primeiros namorados.

Os pais ficaram exilados dos filhos. Tinham a solidão que sempre
desejaram, mas, de repente, morriam de saudades daquelas "pestes".


Chega o momento em que só nos resta ficar de longe torcendo e rezando muito (nessa hora, se a gente tinha desaprendido, reaprende a rezar) para que eles acertem nas escolhas em busca da felicidade. E que a conquistem do modo mais completo possível. Resta-nos esperar: a qualquer momento nos podem dar netos. Com o neto, volta a hora do carinho ocioso e incontrolado,
não exercido nos próprios filhos e que não pode morrer connosco.

Por isso, os avós são tão desmesurados e distribuem tão incontrolável carinho. Os netos são a última oportunidade de reeditar o seu afecto. Por isso é necessário fazer alguma coisa mais, antes que eles cresçam.


Aprendemos a ser filhos depois de termos sido pais.
Só aprendemos a ser pais depois de sermos avós..."
Texto de Affonso Romano de Sant'Anna

1 Comments:

Blogger Giso said...

Gostei.

3:57 p.m.  

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