2.16.2005

Sê o Cisne

Talvez o maior desafio da vida moderna seja sermos nós mesmos num mundo que insiste em modelar a nossa maneira de ser. Querem que deixemos de ser como somos e passemos a ser o que os outros esperam que sejamos.
Aliás, a própria palavra "pessoa" já é um convite para que deixes de seres tu. "Pessoa" vem de "Persona", que significa "máscara".
É isso mesmo: coloque a máscara e vá para o trabalho. Ou vá para a vida com a sua máscara. Talvez o sentido do elogio: "Fulano é uma boa pessoa", signifique na verdade: "Ele sabe usar muito bem a sua máscara social".
Mas qual o preço de ser bem adaptado?
O número de depressivos, alcoólatras e suicidas aumenta assustadoramente. Doenças do forro psicológico como síndrome do pânico e síndrome do lazer não param de surgir. Dizer-se stressado virou cliché nas conversas entre amigos e familiares. Esse é o preço.
Mas pior que isso é a terrível sensação de inadaptação que parece perseguir a maioria das pessoas. Aquele sentimento cristalino de que não estamos a viver de acordo com a nossa vocação. E qual o grande modelo da sociedade moderna? Querer ser o que a maioria finge que é. Querer viver fazendo o que a maioria faz. É essa a cruel angústia do nosso tempo: o medo de ser ultrapassado numa corrida que define quem é melhor, baseada em parâmetros que, no final da pista, não levam as pessoas a serem felizes.
Quanta gente nós não conhecemos, que vive correndo atrás de metas sem conseguir olhar para dentro da sua alma e perguntar onde exactamente desejam chegar ao final da corrida?Basta voltar os olhos para o passado para ver as represálias sofridas por quem ousou sair dos trilhos, e, mais que isso, despertou nas pessoas o desejo de serem elas mesmas.
Vê o que aconteceu a John Lennon, Abraham Lincoln, Martin Luther King, Isaac Rabin? É muito perigoso não ser adaptado! Essa mesma sociedade que nos engessa com as suas regras de conduta, luta intensamente para fazer da educação um processo de produção em massa.
A maioria das nossas escolas trabalha para formar estudantes capazes de passar de ciclo para ciclo. São poucos os professores que se perguntam se estão formando pessoas para assumirem a sua vocação e a sua forma de ser.
Quantos casos de genialidade foram excluídos das escolas porque estavam além do que o sistema de educação permitia. Conta-se que um professor de Albert Einstein chamou o seu pai para dizer que o filho nunca daria para nada, porque não se conseguia adaptar. Os Beatles foram recusados pela gravadora Deca! O livro "Fernão Capelo Gaivota" foi recusado por 13 editoras! O projeto da Disney Word foi recusado por 67 bancos!
Os gerentes diziam que a ideia de cobrar um único ingresso na entrada do parque não daria lucros. A lista de pessoas que precisaram passar por cima da rejeição porque não se adaptavam ao esquema pré-existente é infinita. A sociedade nos catequiza para que sejamos mais uma peça na engrenagem e quem não se moldar para ocupar o espaço que lhe cabe será impiedosamente criticado.Os próprios departamentos de recrutamento da maioria das empresas fazem isso.
Não percebem que treino é coisa para cães, macacos, elefantes. Seres humanos não deveriam ser treinados, e sim estimulados a dar o melhor de si em tudo o que fazem. Resultado: a maioria das pessoas sente-se o patinho feio e imagina que todo o mundo se sente o cisne.
Triste ilusão: quase todo mundo se sente um patinho feio também. Ainda há tempo! Nunca é tarde para descobrires que és o único.
Nunca é tarde para descobrir que não existe nem nunca existirá ninguém igual a ti.
E em vez de te tornares mais um patinho, escolhe assumir a tua condição inalienável de cisne!